Grito contra o desmonte da nação ecoa pelo país
- Grito dos/as Excluídos/as

- 7 de set. de 2019
- 8 min de leitura
Atualizado: 11 de set. de 2019
Mais de 200 atos do Grito dos Excluídos aconteceram pelo país entre os dias 5 e 7 de Setembro, denunciando cortes na Educação e nos direitos dos trabalhadores/as; desmatamento e queimadas na Amazônia e os crimes da Vale em Mariana e Brumadinho
Já no dia 5/09, em Manaus (AM), cerca de três mil pessoas participaram da Romaria das Águas e do 25º Grito dos/as Excluídos/as. Caminharam 11 quilômetros até a Ponte Rio Negro, local simbólico marcado pelo suicídio e pelo assassinato daqueles que defendem as florestas, a natureza. “É uma forma de darmos visibilidade a tantos gritos que ecoam nos quatro cantos do país e para através da imprensa chamar a atenção da sociedade para as dores dos excluídos e excluídas”, disse Alfa de Jesus, protestando contra as queimadas, em defesa da floresta e da água, um bem-comum.
Em coletiva de imprensa, padre Alcimar Araújo, vice-presidente da Cáritas de Manaus que também caminhou em protesto, lembrou. “Estamos trazendo tudo isso para gritar por justiça, por direito e por liberdade. Mas, ao mesmo tempo, o grito é de esperança, porque queremos ajudar o povo a compreender que a defesa da Amazônia nasce da nossa fé, pois estamos falando da criação que está sob a nossa responsabilidade”.
Dom Sérgio Castriani, arcebispo de Manaus, também caminhou ao lado de crianças, religiosos, mulheres, migrantes e jovens, fortalecendo o grito das várias pastorais da Arquidiocese manauara.
No Amapá, a sexta-feira, dia 6/09, foi reservada para panfletagem na Universidade Federal do Amapá. “Na programação do Grito aqui em Macapá temos grito da juventude contra os cortes na educação e ciência. Também teremos o grito do Movimento dos Atingidos por Barragens, de comunidades quilombolas, das mulheres e outros, contra as políticas do governo Bolsonaro que atingem essas populações. Reivindicamos os direitos ao território, a políticas públicas e outras coisas mais”, disse o estudante Higor Pereira, durante sua panfletagem. O ato, no Amapá, aconteceu no dia 7.
Em Barreirinhas, cidade a 250 quilômetros da capital maranhense, o Grito aconteceu também na sexta-feira, em frente à Igreja Matriz. Representantes de quatro comunidades que vivem em torno do lixão da cidade, jovens da Pastoral da Juventude, alguns professores e representantes de outras comunidades se manifestaram pelas ruas da cidade passando pelo fórum, Câmara Municipal, secretaria de educação e prefeitura encerrando o ato na Praça do Trabalhador.
Cuiabá (MT) também realizou um pré-Grito na Praça Ipiranga, no centro da cidade. Pessoas em situação de rua e militantes de direitos humanos, indígenas e representantes de diferentes entidades se uniram para chamar a atenção da população. “Hoje reunimos mais de 70 pessoas, o microfone ficou aberto para os protestos e angústias. Lutamos por direitos”, disse Inácio Werner, que articula o Grito em Cuiabá há 25 anos. Werner é coordenador do Fórum Estadual de Direitos Humanos.
A praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus, em Picos (PI) também foi palco de manifestação no dia 6/09. A concentração aconteceu ali com uma pauta em defesa de direitos sociais, como saúde, educação, previdências e um grito de basta ao feminicídio. “A gente hoje ainda traz para a cidade o grito das mulheres, o clamor das mulheres pela vida. Parem. Não matem mulheres”, clamou Maria Alves do Nascimento. A comunidade de Valparaiso também participou exigindo providências para a situação do lixão a céu aberto, um problema antigo desta área rural.
Na sexta, dia 6/09, o Grito dos Excluídos/as ecoou também em João Pessoa (PB).
Em Porto Alegre (RS), aconteceu um desfile, dia 6, das crianças e adolescentes das Instituições da Região da Cruzeiro / Porto Alegre, trabalhado o tema do Grito.
O 7 de Setembro em Cariacica, cidade localizada na região metropolitana da Grande Vitória (ES), começou cedo no sábado, dia 7. Manifestantes segurando bandeiras e cartazes contra a tortura e o corte nos investimentos em educação, percorreram as ruas da periferia para denunciar o desmonte de direitos no país. “Estamos nas ruas para denunciar o desmonte dos direitos, a violência, as intolerâncias”, disse Fátima Castelan, membro do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).
Durante o ato, foram distribuídas cartilhas sobre o abuso de policiais em Cariacica. O objetivo é conscientizar os cidadãos sobre seus direitos, informando o que a polícia pode e o que não pode fazer. A cidade conta com a presença de 100 integrantes da Força Nacional, é um projeto piloto do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Projeto que foi denunciado nesta caminhada.
No Santuário de Aparecida (SP), o já tradicional ato, começou às margens do rio onde a imagem da padroeira do Brasil foi encontrada em 1717, no Porto de Itaguaçu. Ali, como há 25 anos, iniciava o Grito dos/as Excluídas/os, sempre ao lado da Romaria dos Trabalhadores/as, que este ano está em sua 32ª edição.
O Grito dos Excluídos/as no Santuário denunciou o rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho (MG) e a situação dos atingidos/as pelo crime ambiental da Vale, culminando com uma grande ciranda. Às 10h30, foi realizada uma celebração na Basílica. Às 6h ocorreu a romaria do Grito de Nova Iguaçu/RJ, em frente ao Santuário de Aparecida.
Sebastião Aranha, militante do Movimento dos Sem Terra (MST) participou do ato em Aparecida. “Estar em Aparecida tem uma simbologia muito grande. Tudo começou aqui há 25 anos”. Para ele, este 7 de Setembro, é um momento de lutar pela garantia das liberdades e dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, além de defender o direitos da famílias agriculturas de plantarem e viverem do campo.
“Nos últimos oito meses, nós não tivemos nenhum avanço para a agricultura familiar, não temos crédito, nada, ao contrário. Com a liberação, pelo Ministério da Agricultura, do uso de mais de 250 agrotóxicos - proibidos nos Estados Unidos e Europa - estão atacando a nossa saúde, a nossa vida, quando sobrevoam as áreas rurais e urbanas vão espalhando veneno”, lembra Aranha.
À beira da lama
Em Congonhas (MG), cidade cercada por 24 barragens, das quais 54% delas têm alto potencial de rompimento, o Grito foi de denúncia contra os crimes da Vale e de alerta à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) que tem o maior número de estruturas (13). O ato começou no Residencial Gualter Monteiro, uma comunidade que vive ao pé da barragem da CSN e que em casos de rompimento da barragem seria atingida em 40 segundos.
“A comunidade fica na zona de salvamento. Há muita angústia. Precisamos entender que a conjuntura exige uma unificação das lutas. Neste Grito, optamos por trazer a realidade da comunidade que já é impactada pela mineração”, disse Ivan Trajano que é operador de produção de uma mineradora.
A caminhada percorreu os morros da comunidade até o Santuário do Bom Jesus, onde aconteceu uma mística de encerramento com a participação de manifestantes de Mariana e Ouro Preto, de diversas organizações, pastorais, movimentos sociais.
Em São Paulo, foram vários os atos. No centro, uma missa foi presidida na Catedral da Sé, e de lá uma passeata com pessoas em situação de rua com padre Júlio Lancellotti e agentes das pastorais sociais e entidades religiosas, manifestaram-se pelas ruas e denunciaram a truculência com que o metrô de SP tem usado para impedir que estas pessoas, já em situação de vulnerabilidade social, abriguem-se do frio e da chuva.
Outra manifestação saiu da Praça Oswaldo Cruz, na região do bairro Paraíso, e seguiu até o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera. Ali, a Central de Movimentos Populares (CMP), a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), entre outras entidades, se uniram para denunciar e gritar por direitos.
“Hoje é a volta dos caras-pintadas. Estamos nas ruas com sentimento de patriotismo. Dando esse grito em defesa da soberania de nosso país, contra os cortes na educação e em defesa da nossa Amazônia”, disse a estudante Rosana Barroso, 20 anos, da UNE.
Para Sonia Coelho, ir às ruas é urgente. “Nós estamos vivendo uma das piores conjunturas do país. Um retrocesso nos direitos da classe trabalhadora. Estamos vendo a tomada da Amazônia pelo agronegócio. Desde o #Elenão, nós mulheres, temos rechaçado Bolsonaro, porque somos nós as mais impactadas, mas nós somos resistência. Damos nosso grito contra a destruição do país”.
Miriam Hermógenes, da CMP, exemplifica o impacto negativo deste governo na vida das mulheres. “A extinção do [programa] Minha Casa Minha Vida nos impacta demais. A casa não é um sonho, é um direito, e estão nos tirando este direito”, disse Miriam que denuncia também o aumento da violência contra mulheres, em muitos casos encorajados pelo tom do governo federal.
Em Mossoró (RN), cerca de 200 pessoas se reuniram em frente ao Ginásio Poliesportivo, anunciando o grito por igualdade e justiça social, Fora Bolsonaro, Grito por Moradia da Terra Prometida, Grito do MST, Grito da Amazônia e dos Povos Indígenas, o Grito da classe trabalhadora contra o ataque a seus direitos, grito da educação, saúde.
Indígenas rechaçam Bolsonaro em atos do Grito
O povo Gavião Kyikatêjê, da Terra Indígena Mãe Maria, localizado em Bom Jesus do Tocantins (PA) participou no dia 7, das manifestações do Grito dos Excluídos. As mulheres, vestidas de preto, usaram uma mordaça representando toda a repressão e perseguição do governo federal aos povos indígenas. “Colocamos a mordaça e quando chegamos em frente das autoridades locais, tiramos e gritamos “existir para resistir”, disse a indígena Concita Konxarti.
A recusa em demarcar terras indígenas por parte do governo Bolsonaro, com investidas para abri-las para exploração por mineradoras, hidrelétricas e pelo agronegócio vem ameaçando a existência desses povos. O povo Pataxó Hã Hã Hã também se manifestou no município de Pau Brasil, no sul da Bahia. “A nação do povo Pataxó é a nação do Galdino que foi queimado vivo por jovens em Brasília (DF). Eles se manifestaram contra o lixão que continua sendo queimado pela Prefeitura Municipal de Pau Brasil. Manifestaram-se também contra os cortes na Educação”, disse Haroldo Heleno, missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Leste atuando junto aos povos indígenas da região.
Em Santarém (Pará) também aconteceram grandes manifestações reivindicando e lutando em defesa da democracia, da liberdade e dos direitos. “Estamos lutando em defesa da nossa Amazônia, denunciando esse sistema de violação que destrói o meio ambiente, a vida do nosso povo, as comunidades tradicionais, expropria direitos territoriais”, disse Sara Pereira, da Fase Amazônia.
Segundo Sara, o lema do Grito tocou no cerne dos problemas do país: o sistema. “Este sistema prioriza o agronegócio, a mineração, as hidrelétricas, ele destrói vidas. Gritamos também em defesa da Amazônia, ela é mais do que floresta. É a nossa terra, a nossa casa, o nosso sangue, a nossa história”.
O Grito em Fortaleza (CE) ocupou as imediações da Praia do Futuro. “Inúmeras comunidades que vivem no entorno da Praia do Futuro se manifestaram. Elas estão acossadas pela especulação imobiliária, pela política e tendo seus direitos à moradia e à sobrevivência usurpados pelas elites locais”, pontuou Magnólia Said, educadora feminista do Esplar.
Em Campinas (SP), o Grito dos Excluídos denunciou a situação de prostituição de crianças e adolescentes. “Estamos inseridos em uma comunidade que está realmente à margem da sociedade e o Itatinga é um bairro no qual o preconceito e a discriminação imperam pela sociedade. É uma realidade única e temos que dar voz a estas pessoas que estão à margem”, disse Fabiana Aparecida Ferreira, diretora de educação infantil de uma Instituição do Centro de Promoção para um Mundo Melhor (CEPROMM). “Trabalhamos esse tema desde os três anos de idade, de maneira lúdica, com rodas de conversas, discussões e mobilizações a ações concretas que envolvem a comunidade e finalizamos com a participação dos alunos no Grito”, disse a professora.
Em Caxias do Sul (RS) houve truculência militar contra os manifestantes do Grito dos Excluídos.
Rosilene Wansetto, da Rede Jubileu Sul Brasil e da Coordenação Nacional do Grito dos Excluídos, avalia que a 25ª edição reflete o sentimento de indignação da população brasileira em relação ao governo Bolsonaro. “Houve uma enorme diversidade de organizações e pessoas participando e se envolvendo no processo de preparação e nas manifestações. Vemos o país inteiro mobilizado: cidades pequenas, maiores, com muita juventude, inclusive das universidades”, avaliou Rosilene.
Ari Alberti, da Coordenação e Secretaria Nacional do Grito desde a primeira edição há 25 anos, avalia que hoje o processo do Grito dos Excluídos é o maior espaço de articulação e mobilização popular do país. “Nesses 25 anos, o Grito conseguiu contribuir para que a sociedade avançasse um pouco na compreensão na forma de você comemorar a comemoração da Pátria. Ela ainda mantém seus enfadonhos desfiles, cavalos e cavaleiros, mas tem outro público que vai à rua neste dia, que é um público que se manifesta, que grita, esperneia, para mostrar que há muito ainda a buscar de Independência”.















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