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Encontro Nacional reúne articuladores e articuladoras do Grito de todo país



Representantes de 22 Estados, das cinco regiões do Brasil, participaram do 3º Encontro Nacional dos Articuladores e Articuladoras do 29º Grito dos Excluídos e Excluídas, que aconteceu no dia 05/08, de forma virtual.


O processo de construção do Grito continua com muita força e energia, expressada nas diversas atividades que se multiplicam nos locais – debates, seminários, reuniões, oficinas de confecção de materiais do Grito, concursos de redação e poesia nas escolas, Esquenta Grito, Grito literário, feiras e saraus culturais, caminhadas, celebrações, rodas de conversa, cirandas, divulgação nas redes sociais. Sempre a partir do tema e lema do Grito: Vida em primeiro lugar! Você tem fome e sede de quê?


Diversos locais já definiram a programação das ações para o dia 7 de Setembro e Semana da Pátria.


O encontro contou com a contribuição do Padre Alfredo José Gonçalves, que trouxe as várias faces da conjuntura atual, a partir das falas dos articuladores e articuladoras presentes na plenária do Grito.


O próximo encontro nacional será no dia 21 de outubro. Para o próximo ano, em que se comemora 30 anos do Grito, a proposta é que o evento volte a ser presencial.




ANÁLISE DE CONJUNTURA


A expressão “análise de conjuntura”, nesta plenária sobre a preparação do Grito dos Excluídos, é muito pretensiosa para os parágrafos que se seguem. Em lugar disso, convido aos participantes desta plenária a um percurso coletivo através de 4 veredas, em meio a esse grande sertão que é o campo socioeconômico e político-cultural. Espero que a metáfora do grande poeta e escritor brasileiro, Guimarães Rosa, possa nos trazer algumas luzes. Vamos à reflexão aos mesmo tempo particularizada e convergente sobre as referidas veredas: a) reconstrução democrática, b) entrave histórico-estrutural, c) sonolência das forças de esquerda e d) avanços na política externa.



1. Reconstrução democrática


Inegavelmente o governo atual vem tentando uma reconstrução daquele fio de confiança nas várias instituições e instâncias do regime democrático. O vírus do negacionismo e da indiferença cede o posto a uma esperança que vem das urnas. Prova disso é a retomada das políticas públicas voltadas, em especial, para o combate à fome e subnutrição, ao desemprego e a formas de trabalho informal; para os distintos povos originários (indígenas), as comunidades quilombolas e os movimentos afro-brasileiros; para os setores da educação e saúde; para a preservação do meio ambiente e contra a derrubada da mata; para o acesso dos pobres e excluídos à educação superior (academia) e para as iniciativas ligadas às expressões artísticas, enfim, em benefício da população de baixa renda.



Para além disso, vale um olhar atento aos indicadores da economia e do mercado (este último quase sempre de humor sombrio e oscilante). Gradualmente, as perspectivas quanto ao crescimento do PIB, o sobe-e-desce da bolsa de valores e as previsões da inflação, por exemplo, têm se revelado razoavelmente favoráveis. Respira-se um forte anseio por melhorias e mudanças que conduzam o país a políticas não apenas emergenciais, mas estruturais, estáveis e mais profundas. Pouco a pouco, o desmonte praticado pelo governo anterior vem sendo revertido. A democracia brasileira, apesar de suas debilidades crônicas, parece entrar nos trilhos.



2. Entrave histórico-estrutural


Na contramão do que acabamos de ver no item acima, permanece uma certa promiscuidade entre os poderes legislativo e executivo (para sequer falar do judiciário em alguns aspectos). O famigerado “centrão”, com o orçamento secreto ou sem ele, segue em grande medida ditando as regras do jogo. Qualquer avanço das políticas públicas direcionadas para a população pobre, excluída e vulnerável arrasta-se a um preço estratosférico. Não bastassem os salários e penduricalhos de cada deputado, as emendas parlamentares continuam um ralo sem fundo do orçamento público. Baste um exemplo: o marco fiscal (famoso arcabouço) teve protelada sua votação, só porque o governo ainda não liberou as verbas correspondentes. Não conseguimos eliminar o balcão de negócios do “toma lá dá cá”. O presidencialismo de coalizão revela seus nós e suas mazelas.



Por outro lado, se é verdade que o Bolsonaro está de joelhos diante de tantos inquéritos e processos, também é certo que o bolsonarismo permanece vivo, forte e prepotente. Arreganha os dentes e afia as unhas sempre que a justiça lhe persegue os calcanhares. Segue fazendo com que a violência e a polarização partidária extremas migrem facilmente das redes digitais para as ruas, praças e meios de comunicação em geral. As investigações sobre as tentativas de golpe e de subversão dos resultados das eleições, bem como os ataques aos três poderes da União, realizadas em 8 de janeiro/2023, por exemplo, andam aos tropeços, em avanços e recuos imprevisíveis.



A essa altura, emerge uma pergunta instigante e inquietadora: a coalizão de centro-esquerda, que hoje governa o país, terá condições de fazer um segundo mandato? E não se trata aqui de um projeto de caráter socialista (tanto menos do fantasma do “comunismo” que tantos teimam em identificar em cada esquina), e sim de dar continuidade a um projeto de produção eminentemente capitalista, dentro da filosofia neoliberal. Irônica e paradoxalmente, a esquerda em termos globais parece chamada a administrar a crise, o declínio e o fim do paradigma liberal, com sua economia capitalista, onde o lucro e a acumulação funcionam como motor que tudo move. Vale a pena repetir a pergunta: conseguiremos manter as instituições democráticas no rumo certo, ou retornaremos aos tempos sombrios da barbárie, do negacionismo e do escárnio?!



3. Sonolência das forças de esquerda


Convido agora a interver a lupa de análise, olhando-nos com coragem para o espelho. O que dizer nos dias de hoje sobre as “forças de esquerda” (na falta de outra expressão) no Brasil e na América Latina e Caribe? Que termos podem ser usados? Vejamos: sonolência, apatia, comodismo, letargia, ou até mesmo preguiça, quem sabe! Desde que a pandemia da Covid-19 fez emergir a possibilidade dos encontros virtuais, como nos custa sair da zona de conforto e voltar aos encontros presenciais! Mas isso é o de menos. O maior problema é que nossas manifestações e mobilizações se tornam tímidas, pífias, não raro insignificantes. Ganham certo entusiasmo por ocasião das últimas eleições majoritárias, depois resfriaram sensível e visivelmente.



O presidente Lula tem repetido com insistência: “Não posso governar sozinho”! Porém, vendo as coisas de sua perspectiva, como confiar na força vulcânica das ruas, campos e praças? E sem essa energia do sangue vivo das multidões, como garantir uma governabilidade que favoreça os setores da população empobrecida? De que forma reverter os rumos, horizontes e prioridades do mercado financeiro, por exemplo, dirigindo s benefícios da ciência e da técnica para as necessidades básicas da nação? Essas perguntas somente encontram resposta nas ruas conscientemente mobilizadas. Uma vez mais, da mesma forma que a espiga, a flor ou o edifício, as verdadeiras mudanças se levantam do chão. Transformações reais e estruturais não costumam cair do Planalto Central, mas se erguem a partir das organizações da Planície.



E a Igreja Católica? Neste processo de organização do Grito dos Excluídos, é lícito que se pergunte pela contribuição da principal instituição que lhe deu origem e o hoje o promove. E aqui também a sonolência ronda as dioceses, paróquias e comunidades. De um lado, o formalismo ritualista insiste em fossilizar-se num liturgismo a-histórico, avesso a qualquer tipo de compromisso social; de outro, é bem conhecido e notório um certo retorno à sacristia. Um espiritualismo estéril e vistoso toma o lugar da espiritualidade encarnada, com raízes do êxodo israelita e em Jesus de Nazaré. As pompas e solenidades externas, além de extravagantemente luxuosas e ostensivas, parecem dissimular não somente lacunas de ordem teológica, mas também vícios inconfessados e inconfessáveis.



Em não poucas celebrações, de modo particular nos meios de comunicação e nas redes digitais, o show e o espetáculo tomaram o lugar da profecia. Se é verdade que as distintas Pastorais Sociais, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), determinadas congregações religiosas e outros setores da Igreja ainda procuram priorizar a dimensão sócio-transformadora, não é menos verdade que mesmo neste caso prevalece não raro a timidez e a arrumação da própria casa. Onde está a Igreja em saída? Onde a sinodalidade, como a participação dos leigos/as? Contra a vontade, devo reconhecer que boa parte da Igreja Católica navega na contração do Papa Francisco.




4. Política externa


A reaproximação com a Comunidade Europeia e com a China, os avanços nos acordos do Mercosul e agora da cúpula da Amazônia, entre outras coisas, fazem o presidente Lula afirmar com repetida ênfase: “O Brasil voltou”. Aqui gostaria de sublinhar, simultaneamente, um ponto positivo e uma preocupação. O ponto positivo, evidentemente, tem a ver com o retorno do Brasil ao complexo cenário da política internacional. Enquanto o governo anterior isolou o país a ponto de este tornar-se um pária, o atual governo retoma os debates que envolvem todo o planeta, como são, por exemplo, a emissão de gases poluentes, de um lado, e a preservação do meio ambiente, por outro. Inegável que o Brasil exerce um papel decisivo e preponderante do palco na política externa, devido não só aos cuidados com a região amazônica e à produção alimentos, mas também à figura do próprio Luiz Inácio Lula da Silva como estadista.



Justamente dessa figura do Lula vem a preocupação. Onde o presidente, neste seu terceiro mandato, encontra maior apoio: nas democracias consolidadas do exterior ou nas forças sociais internas? Sem dúvida, aqui existe uma boa dose de pimenta nos olhos de todos nós. Se for verdade que o maior sustento de Lula vem de fora e não de dentro, como transformar isso em votos nas eleições que se seguem em 2022 e 2m 2026. Não necessariamente votos para a pessoa do Lula, claro, mas para o projeto que, bem ou mal, ele representa. Em termos de política democrática, não cabe mais o culto ao personalismo, ou ao “salvador da pátria”.



E a esta altura vai o desafio: de que maneira transformar o reconhecimento e apoio externo em organização interna, com vistas a dar prosseguimento a esse projeto democrático? Numa palavra, como salvar o rumo da democracia brasileira? Não basta a pressão externa. Ela é necessária, mas deve despertar e mobilizar igualmente a pressão interna, para que o Brasil possa eliminar de vez o espectro do autoritarismo e do nazi-fascismo. A garantia do processo democrático, conquistado a duras penas, repousa acima de tudo sobre os cidadãos e cidadãs de cada país autônomo. Soberania e democracia, combinadas, residem em nossas mãos.


Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, São Paulo, 05/08/2023

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