“BRASIL, 200 anos de (in)dependência. Para quem? ”

A partir de sugestões vindas das várias regiões do Brasil, esse é o lema do 28º Grito dos Excluídos e das Excluídas para o ano de 2022, definido por representantes das organizações que integram a Coordenação Nacional do Grito e articuladoras e articuladores reunidos, presencial – em São Paulo - e virtualmente, no dia 03/12.

O tema permanente do Grito é “Vida em primeiro lugar! ”.


Em vídeo, Dom José Valdeci Santos Mendes, bispo de Brejo/MA, e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sócio Transformadora da CNBB, saudou os/as presentes da reunião, lembrando da importância do Grito “esse grande acontecimento na caminhada das pastorais, dos organismos do povo de Deus, dos movimentos sociais e dos movimentos populares”.


“O Grito de 2022 tem essa grande importância. Quando se fala de 200 anos de independência, a gente se pergunta independência de que? Para nós, em primeiro lugar está a vida. Dizer que a vida está em primeiro lugar é dizer não ao agronegócio, que desmata e mata, ao capitalismo que, cada vez mais, promove o sofrimento e o empobrecimento de muitos irmãos e irmãs. É dizer que precisamos nos comprometer com a justiça, com o direito, com a dignidade e também com a luta em defesa da casa comum e toda a criação. Que o Deus da vida e esse planejamento nos ajude a lutar por um mundo mais justo e fraterno e por um Brasil onde se prime pela vida e o bem viver dos povos”.

Dependência histórica

Será que superamos a colonização, questiona Tchenna Maso, advogada, militante do Movimento dos Atingidos e das Atingidas por Barragens (MAB), que assessorou o encontro. Citando diversos historiadores, como Capistrano de Abreu, Silvio Romero, Gilberto Freire, Caio Prado Jr, entre outros, ela lembra que, em geral, há uma justificação do processo civilizatório e da modernidade eurocentrista, que “encobre ou exclui o outro”. A miscigenação, por exemplo, que aparece como um processo pacífico é fruto de violência sexual contra mulheres indígenas e negras; ou a marginalização dos indígenas do processo histórico e da organização do trabalho.

Embora se fale em independência, para Tchenna, países “subdesenvolvidos”, como o Brasil, garantem a economia dos “desenvolvidos”, porque vivem em dependência, já que “sua inserção é na economia capitalista periférica”. Ela faz uma crítica aos governos progressistas no país e na América Latina, que “criam consumidores, mas não cidadãos”.


Entre os desafios que essa situação impõe, Tchenna destaca a necessidade de repensar e romper com o passado – estrutura patriarcal, escravagista, agricultura do monoculivo. “Como sair dessa ideia de dependência? Como construir um projeto político independente e soberano? Qual é a via para a construção desse projeto? Eleitoral, revolucionário? ”.


“Precisamos nos reapropriar dos conceitos de segurança nacional e soberania, cooptados pelos militares e entendidos de maneira controversa. Precisamos retomar o movimento sindical, a teologia da Libertação, o processo de conscientização popular e reinventar as ferramentas de formação”, alerta Tchenna.