Artigo: Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”
- Flaviana Serafim
- há 7 horas
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“Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!” Este é o lema escolhido para o 32º Grito dos Excluídos e Excluídas, que, nesse 7 de setembro, tomará as ruas das principais cidades brasileiras. De fato, nesse momento que vivemos no Brasil, nenhuma outra palavra traduziria tão bem o tema permanente do Grito que é “Vida em primeiro lugar”. De fato, a vida humana e a vida da Mãe-Terra estão mais ameaçadas e em perigo, do que quando fizemos o 1º Grito dos Excluídos em 1995, depois da 2ª Semana Social Brasileira.
De lá para cá, tornou-se uma tradição que as comemorações do Dia da Independência política do Brasil não se limitem mais a desfiles militares ou de colegiais imitando soldados, sob o toque de tambores e bandas marciais. No Dia da Independência, precisamos recordar que não se pode dissociar a pátria e o povo. O Brasil só será verdadeiramente livre e independente, quando todos os filhos e filhas dessa terra tiverem assegurados os seus direitos à vida, à justiça ecossocial, à dignidade e a paz. Só assim, também, poderemos garantir os direitos da Mãe-Terra e da natureza.
Por isso, nas mais diversas regiões do país, o Grito dos Excluídos e Excluídas convoca todo o povo. Reúne pessoas, igrejas, grupos religiosos de diversas tradições espirituais, movimentos e organizações populares, para denunciar as injustiças socioambientais e as mais diversas formas de violência e atentado contra a vida, que ainda ocorrem no Brasil.
Trata-se de um processo que ocorre em meio a muitas dores e lutas, mas também conta com alguns ganhos e vitórias. Por isso, o Grito dos Excluídos e Excluídas quer também celebrar a força da resistência, as lutas e conquistas do nosso povo. O Grito reúne os gritos de denúncias e reivindicações, mas também de celebração e de festa, que, de certa forma, já antecipam vitórias maiores e mais definitivas.
Neste 32º Grito dos Excluídos e Excluídas, o lema “Em defesa da Terra, da Paz e da Moradia” toma importância maior nesse contexto de campanha eleitoral. Todos sabemos que, nela, não votaremos apenas em pessoas para assumirem o poder executivo e o legislativo, no país e nos estados. De fato, no nosso voto, o que está em jogo é a democracia, mesmo frágil e incompleta, que conseguimos garantir. Votaremos pela soberania nacional, diante de um império, ligado às grandes corporações internacionais de direita e que tem conquistado o poder, em vários países, nossos vizinhos.
Não há como lutar por terra, paz e moradia, sem erguer nossas vozes e empenhar todos os esforços para combater a violência contra a mulher e garantir igualdade de gêneros em todos os âmbitos da vida. O lema desse grito “Mulheres Vivas e Soberania!” traduz a exigência de uma mudança radical na cultura patriarcal e machista, ainda tão fortemente enraizada entre nós.
O Grito dos Excluídos e Excluídas é expressão de um tempo no qual a maioria da hierarquia católica no Brasil ainda compreendia a missão da Igreja como serviço profético para a transformação do mundo. Quem olha como se comporta atualmente a maior parte da hierarquia eclesiástica e do clero tem dificuldade de acreditar que a proposta do primeiro Grito tenha vindo da CNBB. Infelizmente, hoje, grande parte da hierarquia e do clero separa de novo fé e vida, espiritualidade e compromisso social e político. E, assim, torna-se natural que o império e suas organizações consigam inundar os meios sociais de comunicação e as redes virtuais com apóstolos da religião devocional, reduzida ao culto e à idolatria do poder hierárquico.
Hoje, as manifestações populares promovidas pela maioria do clero e da hierarquia católica são marchas “pela vida”, vida, ali, compreendida como defesa do feto ainda não nascido, quando, ao lado, uma multidão de gente viva, de todas as idades, continua, diariamente, excluída da sociedade. A maioria do clero prioriza festas devocionais que se multiplicam, como na época de nossas avós e ignoram a renovação eclesial proposta pelo Concílio Vaticano II e aqui na América Latina, pela conferência episcopal de Medellín (1968). “Nada de novo, debaixo do sol”.
Em alguns lugares do interior, ainda aparecem nas portas dos estabelecimentos comerciais a placa: precisam-se de trabalhadores ou trabalhadoras. Hoje, precisaríamos fixar nas portas de nossas igrejas e catedrais: Precisamos de profetas!
Essa atual orfandade das pastorais sociais e do Grito dos Excluídos, pode, contraditoriamente, trazer uma vantagem: garantir para o grito e para todo o serviço pastoral da fé uma dimensão laical que é mais coerente com o evangelho de Jesus. Este sempre agiu para além do templo.
Essa dimensão laical (não laicista) abre-se mais profundamente à dimensão ecumênica da fé profética. Torna o Grito dos Excluídos e Excluídas uma manifestação de espiritualidade aberta a todas as expressões religiosas, principalmente, as que vêm dos povos originários e das comunidades afrodescendentes, que representam as camadas, de fato, mais excluídas de nossa sociedade.
Ao privilegiar essas expressões espirituais, o Grito estará cumprindo um dever de justiça, em relação a culturas que foram silenciadas e condenadas pelo colonialismo de uma fé cristã, ainda vivida no âmbito da Cristandade eurocêntrica. No entanto, além disso, tornar-se-á, cada vez mais protagonizado pelas categorias que quer representar. Assim, reunirá os gritos das comunidades mais empobrecidas do campo e da cidade, em um único e mais profundo Grito dos Excluídos e Excluídas.
Por Frei Marcelo Barros






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