Nota de repúdio frente à violência contra o Grito em Vitória da Conquista (BA)
Atualizado: há 2 dias
Há 32 anos, o Grito dos Excluídos ocupa as ruas de Vitória da Conquista no 7 de Setembro, levando para a avenida as vozes, reivindicações e lutas dos trabalhadores, dos movimentos sociais e daqueles que muitas vezes não encontram espaço nas celebrações oficiais.
Em 2026, na sua 32ª edição, o Grito foi às ruas com o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”, reafirmando a defesa da democracia, dos direitos sociais, da moradia, da educação pública, do trabalho digno e do enfrentamento à violência contra as mulheres.
Foi com esse propósito, pacífico e democrático, que mais uma vez entramos na avenida. Ao longo de mais de três décadas, o Grito atravessou diferentes gestões municipais, apresentou reivindicações, fez críticas e ocupou seu espaço no 7 de Setembro. Em nenhum desses 30 anos uma gestão municipal tratou o movimento da forma como vem sendo tratado pela atual administração.
E foi justamente nesse espaço, construído historicamente como lugar de participação e manifestação, que fomos surpreendidos por episódios de truculência, intimidação e violência que repudiamos com toda firmeza.
Durante a passagem do Grito, várias pessoas sofreram agressões, empurrões e intimidações, entre elas mulheres, professores e outros participantes da manifestação.
O caso mais grave foi o do professor Marcelo Neves, docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), integrante dos movimentos sociais e dirigente partidário, atingido pelas costas com um golpe na região da cabeça. Após a agressão, registrou ocorrência policial, precisou procurar atendimento médico e permanece hospitalizado, em observação. Exame de tomografia constatou sangramento no crânio, e o professor aguarda novos exames. Os demais episódios de violência contra participantes do Grito também precisam ser devidamente apurados.
Também causa profunda preocupação a forma como o Grito dos Excluídos foi tratado durante todo o desfile. Ao longo do percurso, o movimento foi acompanhado continuamente pela Guarda Municipal e por funcionários da Secretaria Municipal de Educação (SMED). Ao final de sua passagem pela avenida, também era possível visualizar a presença da Polícia Militar junto à Guarda Municipal e aos demais agentes que acompanhavam a manifestação.
Não se tratou de uma presença pontual. Para os participantes, esse
acompanhamento permanente e ostensivo, somado às tentativas de controlar a
passagem do movimento e ao ambiente de tensão estabelecido, assumiu caráter de
vigilância, intimidação e constrangimento. Em vez de assegurar tranquilidade para o
exercício do direito de manifestação, criou-se um ambiente de pressão sobre um
movimento que há décadas ocupa o 7 de Setembro para reivindicar direitos,
denunciar desigualdades e fazer críticas ao poder público.
E esse tratamento não começou em 2026. Já em 2025, o Grito enfrentou
dificuldades e constrangimentos em sua participação no desfile. Neste ano,
entretanto, os acontecimentos ultrapassaram qualquer limite aceitável.
Além do acompanhamento ostensivo durante o percurso, a atual gestão municipal
deixou o palco antes da passagem do Grito. Na condução oficial do desfile, o mestre
de cerimônias sequer anunciou a presença do movimento ou mencionou o tema e o
lema levados às ruas em 2026.
Não são apenas questões de protocolo. São atitudes que, reunidas, contribuem
para invisibilizar, constranger e reduzir o espaço de uma manifestação que há 32
anos integra o 7 de Setembro em Vitória da Conquista.
Também causa preocupação a manifestação oficial da Secretaria Municipal de
Educação, que classificou o episódio como um “confronto provocado pelos
manifestantes”, sem enfrentar objetivamente as denúncias de violência. Há
registros em vídeos e fotografias do contexto dos fatos, além de imagens do homem
apontado por testemunhas como suposto agressor do professor Marcelo vestindo
camisa com identificação da própria Secretaria.
Cabe ao Município esclarecer quem é essa pessoa, qual seu vínculo com a
administração pública e garantir uma investigação séria, transparente e rigorosa
sobre todas as agressões ocorridas.
O Grito dos Excluídos cobra a identificação e apuração da conduta dos envolvidos;
o esclarecimento sobre eventual vínculo do suposto agressor com a SMED; a
investigação das agressões contra o professor Marcelo Neves, demais professores,
mulheres e outros participantes; a apuração de eventuais responsabilidades de
agentes públicos; e a garantia de que o movimento possa exercer seu direito de
manifestação sem cerceamento, intimidação ou violência.
Ao professor Marcelo Neves, aos demais professores, às mulheres e a todas as
pessoas agredidas, nossa solidariedade.
O Grito dos Excluídos continuará nas ruas porque é nas ruas que, há 32 anos, faz
ouvir as vozes de quem luta por direitos, dignidade e justiça social em Vitória da
Conquista.
Nenhuma divergência política justifica violência. Nenhuma gestão pode decidir quais
vozes merecem ser ouvidas. Democracia não combina com intimidação.
Vitória da Conquista, 8 de setembro de 2026.
GRITO DOS EXCLUÍDOS — VITÓRIA DA CONQUISTA
FÓRUM SINDICAL E POPULAR
PASTORAIS SOCIAIS







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